#coluna

Um ato de resistência pelo Orelha

Há dias está difícil dormir. Tem notícias que a gente lê. Outras atravessam a alma, e pior, de uma forma dolorida.

Por: Renata Seliprim

12:00:00 - 03/02/2026

Um ato de resistência pelo Orelha

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Há dias está difícil dormir.

Tem notícias que a gente lê. Outras atravessam a alma, e pior, de uma forma dolorida. Eu não tive coragem de ver nenhum vídeo, mas o algoritmo do Instagram me entrega toda e qualquer informação sobre o ‘Orelha’.

O mundo todo está comentando. E não é exagero - é sobre o que isso diz de nós.

A violência contra animais raramente começa no ato extremo. Ela começa na piada, no descaso, na frase ‘é só um bicho’.

Maltratar animais, infelizmente, é cultural.

 

Todos os dias essas perguntas ecoam em mim:

Como alguém faz isso?

O que acontece dentro de uma pessoa pra chegar a esse ponto?

Por que a violência contra quem não pode se defender ainda é relativizada?

Que tipo de sociedade forma jovens capazes disso?

Não sou nenhuma especialista em saúde mental, mas é impossível não se perguntar que tipo de desconexão humana permite esse nível de crueldade.

 

Nossas leis ainda são brandas para a causa animal. Há necessidade urgente de políticas públicas para casos como esse. Em países onde o abandono é tratado como crime sério, a violência diminui. Não por medo apenas, mas por educação e responsabilidade coletiva.

 

E a punição por agora?

Existe um cansaço social quando a violência parece não alcançar todos da mesma forma. Quando a sensação é de que a justiça pesa diferente dependendo da classe social e conta bancária.

E quando a justiça demora, resta para a sociedade encontrar outras formas de se posicionar. O boicote não é linchamento - é escolha. É dizer: com isso, eu não compactuo.

 

O amor pelos animais é herança do meu pai. Talvez por isso certas violências me atinjam de um jeito que eu não consigo silenciar. Eu cresci vendo meu pai comprar aves de traficantes de beira de estrada pra tratar e soltá-las depois. 

Talvez a evolução não seja rápida.

Mas ela começa quando a gente para de fingir que não viu. Denunciar é um ato de cuidado. Se posicionar não é militância, é humanidade. Ensinar nossos filhos a respeitar todo e qualquer tipo de vida também é educação emocional.

 

Não escrevo isso com ódio.

Escrevo com tristeza.

E com a esperança teimosa de que sentir ainda seja um caminho.

 

Que a gente não normalize.

Que a gente não desvie o olhar.

Que a gente cuide.

Não é sobre o cão Orelha. É sobre quem a gente escolhe ser depois de saber que ele existiu.

Hoje, isso é quase um ato de resistência.

 

Por enquanto, a insônia vai continuar por aqui… E eu sei direitinho qual é o motivo.

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